GUERRA NO ORIENTE MÉDIO PÕE EM XEQUE POLÍTICA DE PREÇOS DA PETROBRAS


O conflito no Oriente Médio desorganizou o mercado global de petróleo e trouxe consequências para o mundo todo, principalmente após o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa 20% da produção da commodity. No Brasil, o impacto tirou a Petrobras da posição confortável de preços de derivados alinhados ao mercado internacional e a levou a um ciclo de defasagens recordes, que coloca à prova a estratégia comercial adotada pela companhia em 2023, quando abandonou o preço de paridade de importação (PPI).

A dúvida agora é por quanto tempo a estatal vai conseguir manter o compromisso de não repassar ao consumidor brasileiro a volatilidade externa dos preços dos combustíveis. Na avaliação de analistas, dificilmente a cotação do petróleo vai retornar ao patamar pré-guerra, e menos ainda descer aos US$ 50 por barril, projetados no ano passado para 2026.

“Nesse cenário, o preço pode cair, mas não acredito que volte para aquele patamar muito baixo em que estava anteriormente. Os países vão ter de recompor reservas e o preço vai continuar pressionado por alguns meses, mesmo que a guerra acabe agora”, disse ao Estadão/Broadcast o professor do Instituto de Energia da PUC-Rio, Edmar Almeida.

As projeções de dez entre dez analistas, no fim de 2025, apontavam para a cotação da commodity caindo para US$ 50 por barril. Mas, no dia 28 de fevereiro, ataques aéreos contra estruturas estratégicas do Irã, orquestrados pelos Estados Unidos e por Israel, iniciaram o conflito, que dura até hoje e elevou o preço do petróleo a patamares acima de US$ 100 por barril. Não há como prever até quando a guerra vai durar.

Poucos meses antes do conflito, a Petrobras anunciou seu Plano de Negócios 2026-2030 e informou que, por causa do baixo preço do petróleo, colocaria US$ 10 bilhões em espera para proteger sua capacidade de financiamento. Na época, o barril girava em torno de US$ 60.

Naquele momento, os preços praticados pelas refinarias da estatal caminhavam praticamente alinhados ao mercado internacional, sem pressão para reajustes. O diesel vendido pela empresa chegou a ficar congelado por mais de 300 dias, até que, com o início da guerra, o jogo virou.

A escalada do petróleo foi ganhando força aos poucos e, nos primeiros dez dias de março, já atingia US$ 100. O diesel alcançava seu maior valor desde 2023, obrigando a Petrobras a elevar o preço do combustível em 11,6% — ainda bem abaixo do que seria necessário para atingir a paridade de importação (PPI).

O impacto da nova política de preços da empresa poderá ser avaliado no resultado do primeiro trimestre do ano, com o petróleo mais caro compensando, em parte, eventuais perdas de margem com a venda de derivados.

A presidente da estatal, Magda Chambriard, já afirmou que a política de preços da companhia não será alterada e reforçou a missão da empresa de evitar que a volatilidade externa dos preços contamine o mercado brasileiro.

“A companhia entregou seus resultados e mostrou ser, vamos dizer assim, resiliente o suficiente para enfrentar essa variação de cenário. No começo desse ano, essa volatilidade está exacerbada por questões de guerra, mas a nossa política interna persiste íntegra e sólida”, afirmou ao divulgar o resultado de 2025, um lucro 200% em relação ao ano anterior, de R$ 110 bilhões.

Novo cenário

De lá para cá, o quadro vem se apresentando cada vez mais volátil. A cada declaração do presidente norte-americano, Donald Trump, o preço do petróleo toma um rumo diferente, e as inúmeras contradições do mandatário têm aumentado as incertezas em relação ao futuro. O maior agravante da guerra na esfera econômica, segundo analistas, foi o fechamento do Estreito de Ormuz, que restringiu a oferta da commodity e de outros produtos, como fertilizantes, gás natural liquefeito (GNL) e alimentos, entre outros.

No Brasil, apesar de o abastecimento estar garantido, a alta dos preços dos combustíveis aos poucos começa a chegar ao bolso do consumidor, seja diretamente, pela gasolina, seja indiretamente, pelo diesel, que afeta todos os setores da economia.

Após relatos de desabastecimentos pontuais no sul do País, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) lançou um sobreaviso de abastecimento nacional para ter mais controle sobre a movimentação de combustíveis e os estoques, além de exigir maior oferta ao mercado. A agência foi elevada ao posto de xerife e tem feito incursões em postos de abastecimento para coibir preços abusivos. O setor, porém, tem reagido e cobrado da ANP regras claras para definir essa abusividade.

Segundo o diretor da ANP, Pietro Mendes, em entrevista recente, o abastecimento está garantido em abril.

Com relação a suprimento, nós não identificamos para o mês de abril nenhum risco de abastecimento no Brasil. Obviamente, temos de acompanhar a evolução dos conflitos porque é fato que temos uma dependência externa de GLP e diesel”, disse durante o primeiro dia do Fórum Brasileiro de Líderes em Energia, no Rio de Janeiro. “Nossas refinarias apresentam estabilidade na produção de diesel S10 e S500”, complementou.

A Petrobras, responsável por cerca de 70% do abastecimento de combustíveis do País, também tranquilizou o mercado, informando, inclusive, que não terá necessidade de importação de diesel em maio, já que sua estratégia de adiar manutenções programadas e operar com elevados fatores de utilização das refinarias permitiu produção suficiente para atender o mercado tanto neste mês quanto no próximo.




Estadão




GUERRA NO ORIENTE MÉDIO PÕE EM XEQUE POLÍTICA DE PREÇOS DA PETROBRAS GUERRA NO ORIENTE MÉDIO PÕE EM XEQUE POLÍTICA DE PREÇOS DA PETROBRAS Reviewed by Erivan Justino on quinta-feira, abril 23, 2026 Rating: 5

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