O RETRATO DA SAÚDE MENTAL DOS JOVENS NO RN
Os dados mais recentes da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgados pelo IBGE, são aterradores. No Rio Grande do Norte, 15,3% dos estudantes de 13 a 17 anos afirmaram que sentem, na maior parte do tempo ou sempre, que a vida não vale a pena ser vivida. Em Natal, esse percentual chega a 17,5%. Em termos práticos, trata-se de aproximadamente um em cada dez adolescentes convivendo com esse tipo de percepção sobre a própria existência.
O dado, por si só, já exige atenção. Mas ele não está isolado. Quando se observa o recorte por gênero, a diferença se amplia de forma significativa. No estado, 20,5% das meninas relataram esse sentimento, contra 10,3% dos meninos. Na capital, os índices são de 23,8% entre mulheres e 11,1% entre homens. A disparidade se repete em escala nacional: 25,0% das estudantes brasileiras declararam sentir que a vida não vale a pena, enquanto entre os homens o percentual é de 12,0%.
A análise dos dados mostra que esse não é um fenômeno pontual ou localizado. No Brasil, 18,5% dos estudantes relataram esse sentimento, e no Nordeste o índice alcança 19,2%. O Rio Grande do Norte, portanto, se insere em um contexto mais amplo, mas com características próprias que merecem atenção, especialmente quando se observa a intensidade de alguns indicadores na capital.
Outro ponto relevante diz respeito à frequência de sentimentos de tristeza. No Estado, 25,9% dos estudantes afirmaram ter se sentido tristes na maior parte do tempo ou sempre nos 30 dias anteriores à pesquisa. Entre as meninas, o percentual é de 37,9%, enquanto entre os meninos é de 14,1%. Em Natal, esse índice chega a 28,9%. Mais uma vez, a diferença entre os grupos revela que determinados segmentos estão mais expostos a esse tipo de experiência emocional.
O levantamento também aponta que 30,2% dos estudantes potiguares disseram ter sentido vontade de se machucar de propósito ao menos uma vez nos 12 meses anteriores à pesquisa. Entre as meninas, o percentual atinge 41,1%, enquanto entre os meninos é de 19,5%. Trata-se de um dado que amplia o entendimento do problema e indica que não se trata apenas de sentimentos momentâneos, mas de manifestações que podem envolver riscos mais amplos.
A pesquisa avança ainda sobre aspectos do ambiente familiar. No Rio Grande do Norte, 35,9% dos alunos de escolas públicas e 33,2% das escolas privadas relataram que os pais ou responsáveis não compreenderam seus problemas e preocupações. Entre as mulheres, esse percentual é de 38,4%, e entre os homens, de 32,4%. Além disso, 49,0% dos estudantes disseram ter se sentido muito preocupados com questões do dia a dia na maior parte do tempo ou sempre no período analisado. Entre as meninas, o índice sobe para 59,4%.
Outro dado relevante indica que 33,0% dos estudantes afirmaram que pais ou responsáveis mexeram em seus pertences sem consentimento nos 30 dias anteriores à pesquisa. Embora não seja, isoladamente, um indicador direto de sofrimento psíquico, o número contribui para compor o quadro de relações e percepções no ambiente doméstico.
A leitura conjunta desses indicadores aponta para um cenário preocupante. Os dados ajudam a dimensionar o nível de fragilização da saúde mental dos nossos jovens. Há uma combinação de fatores — emocionais, sociais e relacionais — que atravessam a experiência dos adolescentes e que se manifestam de maneira desigual entre grupos, especialmente quando se observa o recorte de gênero.
Diante disso, os números apresentados pela PeNSE não podem ser reduzidos a estatísticas frias ou a registros pontuais. Eles demandam interpretação, contexto e, sobretudo, disposição para compreender o que está por trás de cada percentual. A pesquisa oferece uma base objetiva para esse exercício: mostra a dimensão do fenômeno, identifica padrões e evidencia desigualdades.
A partir desses dados, cabe à sociedade — em suas diferentes esferas — assumir a responsabilidade de olhar para essa realidade de forma direta. Isso implica reconhecer que os indicadores existem, que afetam uma parcela significativa dos jovens e que não se distribuem de maneira homogênea.
Mais do que respostas imediatas, o que se coloca é a necessidade de leitura qualificada desses números. Entender as causas, os contextos sociais, as dinâmicas familiares e escolares que ajudam a explicar por que determinados grupos apresentam índices mais elevados é um passo necessário para qualquer abordagem futura.
A PeNSE cumpre, nesse sentido, um papel central: oferece evidências. O que se faz com elas, no entanto, depende da capacidade de interpretação e do compromisso coletivo em não ignorar o que os dados mostram.
O RETRATO DA SAÚDE MENTAL DOS JOVENS NO RN
Reviewed by Erivan Justino
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sexta-feira, março 27, 2026
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