CERCADOS PELO ÓDIO: BRASIL TEM 150 MIL ADEPTOS AO NEONAZISMO, DIZ PESQUISA


O Largo da Ordem acaba de ser palco de mais uma cena de ódio em Curitiba. Uma confusão entre punks e skinheads acabou com três homens esfaqueados na noite deste sábado (2). O confronto entre esses dois grupos é comum e, infelizmente, faz parte de uma série de atos de violência com fundo racista e supremacista cada vez mais comuns na capital paranaense e no Brasil.
Como outro que veio à tona em 14 de agosto. Estudantes do setor de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Paraná (UFPR) se depararam com uma mensagem pouco amistosa pichada em um dos banheiros: “Fora Cotistas, Poder Branco”. Um ato anônimo imediatamente condenado pela instituição. “Todos os alunos que ingressaram nesta universidade advindos de escolas públicas ou particulares merecem respeito, independentemente de cor, gênero, orientação sexual, crença religiosa ou ideologia política”, escreveu em sua página no Facebook a coordenadora do curso de Medicina, professora Marta Rehme. É curioso, mas talvez não surpreendente. Apenas dois dias antes, uma manifestação de supremacistas brancos em Charlottesville, nos Estados Unidos, terminou com a morte de uma pessoa e escancarou para o mundo uma escalada do ódio não tão distante de nossa realidade.
“Há uma tendência mundial ao radicalismo com diversas motivações. A crise humanitária na Europa [o continente tem recebido um grande fluxo de imigrantes sírios desde 2015] fez crescer o número de grupos xenofóbicos, por exemplo. A falta de emprego nos Estados Unidos também impulsionou o ódio a imigrantes. A crise econômica no Brasil também cai no discurso simplista de Sul rico contra Nordeste pobre”, exemplifica Maria Inês Barcellos, mestre em Sociologia pela Unifesp. É uma linha de pensamento que reforça posições de outros estudiosos, como Nelson Rosário de Souza, sociólogo da UFPR que sustenta que momentos de crise levam ao aumento da intolerância.
No Brasil, o discurso de ódio, ao contrário dos Estados Unidos, é velado – manifestações de cunho racista e portar publicamente símbolos nazistas são crimes por aqui. E isso explica, em parte, a sensação de distanciamento dessa realidade. Além disso, existem poucos dados estatísticos sobre a atuação de grupos racistas, homofóbicos, antissemitas (ou intolerantes a qualquer outra religião) ou contrários à migração. No Paraná, por exemplo, a Secretaria de Segurança Pública não consegue filtrar os boletins de ocorrência por motivos discriminatórios. Para saber quais registros foram por ofensa racial, para citar um exemplo, é preciso ir de um em um. Só recentemente essa preocupação em detalhar os dados passou a ser discutida.
Mas, não estar escancarado não significa que algo não exista. É uma preocupação que, embora a polícia não trate como urgente, tem olhado de perto. No fim do ano passado, por exemplo, a Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Polícia Civil paranaense ganhou um setor somente para este tipo de caso. “Nós investigamos crimes de intolerância, preconceito racial e racismo contra a população vulnerável. Surgiu de um entendimento entre Ministério Público, Secretaria de Segurança e Policia Civil. A necessidade veio também de se ter estatística quantitativa de crimes desse tipo que ocorrem em Curitiba para posterior adoção de políticas publicas”, aponta o delegado Fábio Amaro, à frente deste grupo de atuação.
Perseguida
Talvez a pesquisa mais completa sobre os grupos de ódio atuantes no país seja a publicada em 2013 pela antropóloga e doutora pela Unicamp Adriana Dias. Ela monitorou por mais de uma década a movimentação de grupos neonazistas – que pregam o ódio a negros, judeus e homossexuais – em um trabalho que lhe custou parte da liberdade (Adriana não mostra o rosto em entrevistas e nem posta fotos em redes sociais por causa das ameaças recebidas). Segundo seu estudo, existem 150 mil adeptos desta doutrina radical no Brasil. A pesquisadora estima que, deste total, 10% têm posições de liderança e uma parte menor, os 10% destes 10%, já cometeram crimes graves e são procurados ou investigados pela polícia.
Os números levantados por Adriana expõem a seriedade do assunto no Sul do país. É aqui o lar da maioria absoluta dos adeptos: 105 mil. E mais: calcula-se que 18 mil deles estejam no Paraná – o estado fica atrás de Santa Catarina (45 mil), Rio Grande do Sul (42 mil) e São Paulo (29 mil). À “BBC”, Adriana apontou que estes são estados em que mais pesam fatores como racismo, concentração de renda na mão de poucos – para ela, uma “elite segregacionista”.
A classificação da pesquisadora leva em conta a forma mais fácil de monitorar estes grupos. Sua análise é baseada em pessoas que baixaram mais de 100 arquivos pesados (entre 10 e 100 megabytes) de material neonazista – ou seja, que estavam se familiarizando com esse pensamento ultradireitista. É o mundo online revelando a intolerância offline.
CERCADOS PELO ÓDIO: BRASIL TEM 150 MIL ADEPTOS AO NEONAZISMO, DIZ PESQUISA CERCADOS PELO ÓDIO: BRASIL TEM 150 MIL ADEPTOS AO NEONAZISMO, DIZ PESQUISA Reviewed by Erivan Justino on 04 setembro Rating: 5
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Romário Bispo